TAI-CHI DIMINUI O NÚMERO DE
CÉLULAS INFLAMATÓRIAS NO SANGUE
Uma hora de prática de tai-chi pode diminuir o número de linfócitos pró-inflamatórios que circulam na corrente sanguínea, sugere um estudo piloto nos EUA. Indivíduos saudáveis foram convidados a realizar tai-chi durante uma hora. Quatro mililitros de sangue periférico foram coletados imediatamente antes e depois de uma hora de prática. As células mononucleares do sangue periférico (PBMC) foram isoladas e avaliadas para os marcadores pró-inflamatórios, utilizando citometria de fluxo. Os resultados mostraram que a proporção de monócitos pró-inflamatórios no sangue periférico diminuiu imediatamente após uma hora de prática de tai chi. (Explorando o uso de cinco cores de citometria de fluxo para avaliar o efeito da prática de tai chi aguda em pro subtipos inflamatórios de monócitos Biomed Sci Instrum 2013;.. 49:209-15).
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Rituais e Artes Marciais
É também alguma coisa muito esquecida, diz a raposa. É o que faz com que um dia
seja diferente dos outros dias, uma hora das outras horas.”
Em todo o extremo-oriente, durante milénios, a noção de ritual foi considerada como o eixo fundamental da sociedade e da sua organização. Nada se podia fazer de importante fora dum ritual.
Originalmente, na China , tratava-se de religar o ser humano à Terra (Di) e ao Céu (Tian) e fazer com que as suas acções não perturbassem nem a um, nem a outro. Tentava-se agir segundo as regras conforme as circunstâncias. Essas regras estão registadas numa das obras clássicas da China antiga em que o comentário é atribuido a Confúcio, o “Mestre Kong”.
Trata-se do Livro dos Ritos ou Liji. Com efeito, ele compõe-se de três secções: o Zhouli, “Ritos de Zhou” ou Chou, do nome de uma dinastia chinesa (1121 a .c.–
256d.c.); o Yili, “ritual” e o Lizhi, “ memória sobre os ritos”.
O caractere Li significa conjuntamente rito, ritual, cerimónia, etiqueta, bem-fazer, cortesia, bons modos.O termo ritual – ou rito – vem do sânscrito “rita” indicando “o que é conforme à ordem das coisas”, depois do latim “ritus” significando literalmente “seguindo a boa maneira”, mas igualmente do celta “ritum” que significa “passagem”.
Donde aparece a noção de passagem iniciática do mundo profano e visivel ao mundo sagrado e invisivel.
Entre a Terra e o Céu
Para Lao Zi (Lao Tsé),o ritual é a unica coisa que resta quando tudo está perdido:
Após a perda do Dao (Tao)
vem a Virtude (De)
Após a perda da Virtude
vem a Humanidade (Ren)
Após a perda da Humanidade
vem a Justiça (Yi)
Após a perda da Justiça
vem o Ritual (Li).
O Ritual é a crosta da Lealdade
e da Confiança.
Mas igualmente fonte de Confusão (Luan).
Isto significa simplesmente que o ritual constitui o minimo
indespensável às boas relações humanas e ao estabelecimento de um equilibrio,
de uma harmonia, entre o ser humano com os seus ancestrais e entidades naturais
existentes na Terra e os espíritos existentes no Céu.
A confusão provem simplesmente do facto de que existem muitos rituais, donde o risco de incompreenção, entre os que conhecem o ritual, os iniciados e os que o ignoram, os profanos. Luan que significa “confuso” em chinês, diz-se Ran em japonês.
É o titulo do filme de Kurosawa que em alguns paises ocidentais foi traduzido por “Caos”. Encontra-se a mesma raiz em “randori” que é uma prática nas artes marciais japonesas que consiste num combate livre e controlado realizando-se técnicas de forma alternada entre um e outro adversários, e que significa literalmente “prática de uma via confusa”, o que o diferencia de “kumite” que se traduz por “encontro de mãos”.
Em chinês “encontro de mãos” corresponde a uma saudação ritual fundamental.
O ritual nas artes cavalheirescas
A particularidade especifica das artes marciais, ou artes cavalheirescas, para além de práticas energéticas, espírituais ou de despertar (iluminação) oriundas do Extremo-Oriente, é a de incluirem a noção de ritual. O qual evidentemente a diferentes niveis de prática e de compreenção.
O papel essencial da saudação
O primeiro nivel concerne ao local onde se exerce a prática, que convém respeitar. O segundo nivel diz respeito ao ser humano (ren) participante dessa prática, como o professor, os praticantes mais antigos ou os iniciantes e até mesmo os espectadores.
Trata-se de respeitar o outro, o alter ego, e é assim seja qual fôr o seu sexo, sua idade, sua côr, sua condição social, sua religião e suas particularidades. O terceiro nivel corresponde ao Céu que, através dos espíritos (shen), põem o praticante em relação com outros planos de consciência que trespassam o mundo do real. É o que implica que no judo, no aikido e no karate, se saude o dojo ou o tatami antes que se “suba” para ele, que se troquem saudações com o professor e com os outos praticantes e que por fim nos incline-mos em direção ao retrato do Mestre Fundador.
É evidentemente possivel efectuar estas saudações como uma simples formalidade,mas ao fim de um certo numero de anos, isso denota uma falta de curiosidade que não augura nada de bom. Apesar disso, a continuidade na transmissão de uma tradição japonesa demora. O que se passa , infelizmente, de forma diferente com a China e de uma certa forma com o Vietnam.
China, desperta-te
Historicamente produziu-se uma importante cisão entre o ensinamento clássico, ou tradicional, e o ensinamento moderno. Durante longos anos, o ritual ligado à pratica tem sido considerado como uma emanação do passado revolto porque convem que se torne resoluto em função do materialismo dialéctico e que não exista qualquer outra influência sobre o ser humano, que aquela exercida por um partido politico unico e as suas respectivas patentes. Saudar a Terra ou o Céu, fazer referencia aos “antigos mestres”, aos ancestrais, ou ter consideração por um professor é algo que não tem o aval do Partido, é fazer prova de negacionismo, de desviacionismo, de revisionismo e poderá ser a origem de graves problemas.Existe então uma realidade histórica de prática sem ritual, com a retirada de todo o significado que não seja o desportivo, mas isto é perder a essência da prática e retirar-lhe o seu carácter considerado, outrora, como sagrado.
Uma viagem iniciática
Esse carácter sagrado, ou pelo menos iniciático, que nos desperta para outra coisa pode causar medo e semiar a desordem (luan). É por isso que existe, normalmente, uma caminhada que conduz a pouco e pouco o praticante a esse conhecimento (literalmente “nascer em si”), a essa compreensão (literalmente “receber em si”) e a essa consciência (literalmente “ciência interior”). No Japão, isso simboliza-se, nas escolas tradicionais, pela utilização do famoso cinturão negro que é também considerado como o simbolo do inicio da prática. O terceiro Dan é então considerado como o inicio da realização da prática. Passa-se literalmente daquilo que é claro, visivel e também profano, àquilo que é sombrio, oculto e também secreto, na direcção daquilo que é sagrado.
Na China, isso simboliza-se pela passagem do 36º hexagrama do Yi Jing (Ming Yi, ou “Obscurecimento da luz”) ao 37º hexagrama (Jia Ren, ou “O homem do Clã”).
O que corresponde à “ morte do discípulo, despertar do mestre”, o qual efectuou uma viagem iniciática e descobriu, através do ritual, a compreensão da prática.
Ele faz, agora, parte do Clã (“jia” ou “gar”) ao qual pertence a prática. Numa palavra, antes desta iniciação, “fazia-se” Taiji ou Kung-fu. Depois dela, pratica-se o Taiji do Clã (familia) Yang, Chen, Wu ou Sun, ou o Punho da Famila Hung (Hung gar ou Hong jia) ou Mo (Mo gar). O ritual marca, ainda, as diferentes etapas dessa caminhada e dessa iniciação e contém em si os ensinamentos essênciais. Ele permite simplesmente passar do profano para o sagrado, assim como de se despertar e de se realizar no respeito pela Terra, pelo Ser Humano e pelo Céu, como no Dao.
Em direcção a uma via de paz e de
harmonia
Na China, quer seja no Daoismo (Taoismo), no Budismo ou no Confucionismo, esta nocão de despertar e de realização através dum ritual é omnipresente e não pode ser separada da prática que, neste caso, representa o meio ou utensilio desta descoberta, desta evolução e desta transformação. Isto é o que permite encarar a prática e igualmente a transmissão,dum ensinamento a longo prazo que evita que se cometam muitos erros e que se perca muito tempo. Depois de dezasseis anos de prática e oito de ensino, o ritual permanece o meio de continuar a descobrir as multiplas possibilidades de praticar e de transmitir essa paixão que, sem ele, se tornaria rapidamente numa mania e no melhor meio de se fechar sobre si cultivando o seu ego sub-dimensionado como se fosse um Bonsai. É o que precisa Confúcio nas suas Conversações: Na falta de se reger pelo ritual, a delicadeza torna-se laboriosa, a prudencia temeraria, a bravura insubmisa, a audácia rebelde, o rigor fanático e a justiça intolerante. Ele acrescenta ainda: o respeito interior que não é conforme a estas boas conveniências (ritos) chama-se grosseiria. O respeito exterior que não é conforme a estas boas conveniências chama-se baixeza. A bravura que não é conforme a estas boas conveniências chama-se violência.
Convém sempre recordar que o “Bravo”- “Wu” em chinês, “Bu” em japonês, que se encontram no “Wushu” ou “Budo”- é “ aquele que se opõe à violencia sem a utilizar”.
O Ritual, na sua dimensão sagrada, e as boas conveniências (delicadeza, cortesia, boas maneiras, etiqueta, etc.) nas suas dimensões simplesmente humanas permitem que se transcenda de uma simples prática de combate a uma Via de paz e harmonia. É a mensagem muitas vezes incompreendida e deturpada de Mestres como Kano, Ueshiba, Funakoshi, Sun Lu-Tang, Yip Man, Guo Yun-Shen, etc, e aos seus principais discipulos, sem os quais a arte “marcial” resumir-se-ia agora e sempre em atirar alguém por terra ou em partir tábuas. Ao procurarmos um ideal, somos por vezes , fortemente limitados. Porquê satisfazer-se com um ideal limitado à violência? O Ritual permite essa elevação à outra coisa ilimitada que os sábios da antiga China nunca quiseram nomear mas que se manifesta no Dao.
Guo Yun-Shen afirma ainda: O importante é elevar-se, e o unico segredo para o fazer reside na prática e apenas nela. Assim que pratiquem, o Dao (Tao) não está longe, ele está em vós. Não percam, então, tempo a procurar noutros lados.
Shifu Marco Vieira
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Prof. Helena Mesquita
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PONTOS-CHAVE PARA O TREINO DE KUNG-FU DO GROU BRANCO (Bai He Quan)
Uma hora de prática de tai-chi pode diminuir o número de linfócitos pró-inflamatórios que circulam na corrente sanguínea, sugere um estudo piloto nos EUA. Indivíduos saudáveis foram convidados a realizar tai-chi durante uma hora. Quatro mililitros de sangue periférico foram coletados imediatamente antes e depois de uma hora de prática. As células mononucleares do sangue periférico (PBMC) foram isoladas e avaliadas para os marcadores pró-inflamatórios, utilizando citometria de fluxo. Os resultados mostraram que a proporção de monócitos pró-inflamatórios no sangue periférico diminuiu imediatamente após uma hora de prática de tai chi. (Explorando o uso de cinco cores de citometria de fluxo para avaliar o efeito da prática de tai chi aguda em pro subtipos inflamatórios de monócitos Biomed Sci Instrum 2013;.. 49:209-15).
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Rituais e Artes Marciais
Do profano ao sagrado
“ E sobre ritos. O que é um rito? Diz o pequeno príncipe
É também alguma coisa muito esquecida, diz a raposa. É o que faz com que um dia
seja diferente dos outros dias, uma hora das outras horas.”
Antoine de Saint-Exupéry,
O Pequeno Príncipe
A Função do ritual na China
Em todo o extremo-oriente, durante milénios, a noção de ritual foi considerada como o eixo fundamental da sociedade e da sua organização. Nada se podia fazer de importante fora dum ritual.
Originalmente, na China , tratava-se de religar o ser humano à Terra (Di) e ao Céu (Tian) e fazer com que as suas acções não perturbassem nem a um, nem a outro. Tentava-se agir segundo as regras conforme as circunstâncias. Essas regras estão registadas numa das obras clássicas da China antiga em que o comentário é atribuido a Confúcio, o “Mestre Kong”.
Trata-se do Livro dos Ritos ou Liji. Com efeito, ele compõe-se de três secções: o Zhouli, “Ritos de Zhou” ou Chou, do nome de uma dinastia chinesa (
O caractere Li significa conjuntamente rito, ritual, cerimónia, etiqueta, bem-fazer, cortesia, bons modos.O termo ritual – ou rito – vem do sânscrito “rita” indicando “o que é conforme à ordem das coisas”, depois do latim “ritus” significando literalmente “seguindo a boa maneira”, mas igualmente do celta “ritum” que significa “passagem”.
Donde aparece a noção de passagem iniciática do mundo profano e visivel ao mundo sagrado e invisivel.
Para Lao Zi (Lao Tsé),o ritual é a unica coisa que resta quando tudo está perdido:
Após a perda do Dao (Tao)
vem a Virtude (De)
Após a perda da Virtude
vem a Humanidade (Ren)
Após a perda da Humanidade
vem a Justiça (Yi)
Após a perda da Justiça
vem o Ritual (Li).
O Ritual é a crosta da Lealdade
e da Confiança.
Mas igualmente fonte de Confusão (Luan).
A confusão provem simplesmente do facto de que existem muitos rituais, donde o risco de incompreenção, entre os que conhecem o ritual, os iniciados e os que o ignoram, os profanos. Luan que significa “confuso” em chinês, diz-se Ran em japonês.
É o titulo do filme de Kurosawa que em alguns paises ocidentais foi traduzido por “Caos”. Encontra-se a mesma raiz em “randori” que é uma prática nas artes marciais japonesas que consiste num combate livre e controlado realizando-se técnicas de forma alternada entre um e outro adversários, e que significa literalmente “prática de uma via confusa”, o que o diferencia de “kumite” que se traduz por “encontro de mãos”.
Em chinês “encontro de mãos” corresponde a uma saudação ritual fundamental.
A particularidade especifica das artes marciais, ou artes cavalheirescas, para além de práticas energéticas, espírituais ou de despertar (iluminação) oriundas do Extremo-Oriente, é a de incluirem a noção de ritual. O qual evidentemente a diferentes niveis de prática e de compreenção.
O primeiro nivel concerne ao local onde se exerce a prática, que convém respeitar. O segundo nivel diz respeito ao ser humano (ren) participante dessa prática, como o professor, os praticantes mais antigos ou os iniciantes e até mesmo os espectadores.
Trata-se de respeitar o outro, o alter ego, e é assim seja qual fôr o seu sexo, sua idade, sua côr, sua condição social, sua religião e suas particularidades. O terceiro nivel corresponde ao Céu que, através dos espíritos (shen), põem o praticante em relação com outros planos de consciência que trespassam o mundo do real. É o que implica que no judo, no aikido e no karate, se saude o dojo ou o tatami antes que se “suba” para ele, que se troquem saudações com o professor e com os outos praticantes e que por fim nos incline-mos em direção ao retrato do Mestre Fundador.
É evidentemente possivel efectuar estas saudações como uma simples formalidade,mas ao fim de um certo numero de anos, isso denota uma falta de curiosidade que não augura nada de bom. Apesar disso, a continuidade na transmissão de uma tradição japonesa demora. O que se passa , infelizmente, de forma diferente com a China e de uma certa forma com o Vietnam.
Historicamente produziu-se uma importante cisão entre o ensinamento clássico, ou tradicional, e o ensinamento moderno. Durante longos anos, o ritual ligado à pratica tem sido considerado como uma emanação do passado revolto porque convem que se torne resoluto em função do materialismo dialéctico e que não exista qualquer outra influência sobre o ser humano, que aquela exercida por um partido politico unico e as suas respectivas patentes. Saudar a Terra ou o Céu, fazer referencia aos “antigos mestres”, aos ancestrais, ou ter consideração por um professor é algo que não tem o aval do Partido, é fazer prova de negacionismo, de desviacionismo, de revisionismo e poderá ser a origem de graves problemas.Existe então uma realidade histórica de prática sem ritual, com a retirada de todo o significado que não seja o desportivo, mas isto é perder a essência da prática e retirar-lhe o seu carácter considerado, outrora, como sagrado.
Esse carácter sagrado, ou pelo menos iniciático, que nos desperta para outra coisa pode causar medo e semiar a desordem (luan). É por isso que existe, normalmente, uma caminhada que conduz a pouco e pouco o praticante a esse conhecimento (literalmente “nascer em si”), a essa compreensão (literalmente “receber em si”) e a essa consciência (literalmente “ciência interior”). No Japão, isso simboliza-se, nas escolas tradicionais, pela utilização do famoso cinturão negro que é também considerado como o simbolo do inicio da prática. O terceiro Dan é então considerado como o inicio da realização da prática. Passa-se literalmente daquilo que é claro, visivel e também profano, àquilo que é sombrio, oculto e também secreto, na direcção daquilo que é sagrado.
Na China, isso simboliza-se pela passagem do 36º hexagrama do Yi Jing (Ming Yi, ou “Obscurecimento da luz”) ao 37º hexagrama (Jia Ren, ou “O homem do Clã”).
O que corresponde à “ morte do discípulo, despertar do mestre”, o qual efectuou uma viagem iniciática e descobriu, através do ritual, a compreensão da prática.
Ele faz, agora, parte do Clã (“jia” ou “gar”) ao qual pertence a prática. Numa palavra, antes desta iniciação, “fazia-se” Taiji ou Kung-fu. Depois dela, pratica-se o Taiji do Clã (familia) Yang, Chen, Wu ou Sun, ou o Punho da Famila Hung (Hung gar ou Hong jia) ou Mo (Mo gar). O ritual marca, ainda, as diferentes etapas dessa caminhada e dessa iniciação e contém em si os ensinamentos essênciais. Ele permite simplesmente passar do profano para o sagrado, assim como de se despertar e de se realizar no respeito pela Terra, pelo Ser Humano e pelo Céu, como no Dao.
Na China, quer seja no Daoismo (Taoismo), no Budismo ou no Confucionismo, esta nocão de despertar e de realização através dum ritual é omnipresente e não pode ser separada da prática que, neste caso, representa o meio ou utensilio desta descoberta, desta evolução e desta transformação. Isto é o que permite encarar a prática e igualmente a transmissão,dum ensinamento a longo prazo que evita que se cometam muitos erros e que se perca muito tempo. Depois de dezasseis anos de prática e oito de ensino, o ritual permanece o meio de continuar a descobrir as multiplas possibilidades de praticar e de transmitir essa paixão que, sem ele, se tornaria rapidamente numa mania e no melhor meio de se fechar sobre si cultivando o seu ego sub-dimensionado como se fosse um Bonsai. É o que precisa Confúcio nas suas Conversações: Na falta de se reger pelo ritual, a delicadeza torna-se laboriosa, a prudencia temeraria, a bravura insubmisa, a audácia rebelde, o rigor fanático e a justiça intolerante. Ele acrescenta ainda: o respeito interior que não é conforme a estas boas conveniências (ritos) chama-se grosseiria. O respeito exterior que não é conforme a estas boas conveniências chama-se baixeza. A bravura que não é conforme a estas boas conveniências chama-se violência.
Convém sempre recordar que o “Bravo”- “Wu” em chinês, “Bu” em japonês, que se encontram no “Wushu” ou “Budo”- é “ aquele que se opõe à violencia sem a utilizar”.
O Ritual, na sua dimensão sagrada, e as boas conveniências (delicadeza, cortesia, boas maneiras, etiqueta, etc.) nas suas dimensões simplesmente humanas permitem que se transcenda de uma simples prática de combate a uma Via de paz e harmonia. É a mensagem muitas vezes incompreendida e deturpada de Mestres como Kano, Ueshiba, Funakoshi, Sun Lu-Tang, Yip Man, Guo Yun-Shen, etc, e aos seus principais discipulos, sem os quais a arte “marcial” resumir-se-ia agora e sempre em atirar alguém por terra ou em partir tábuas. Ao procurarmos um ideal, somos por vezes , fortemente limitados. Porquê satisfazer-se com um ideal limitado à violência? O Ritual permite essa elevação à outra coisa ilimitada que os sábios da antiga China nunca quiseram nomear mas que se manifesta no Dao.
Guo Yun-Shen afirma ainda: O importante é elevar-se, e o unico segredo para o fazer reside na prática e apenas nela. Assim que pratiquem, o Dao (Tao) não está longe, ele está em vós. Não percam, então, tempo a procurar noutros lados.
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QIGONG (CHI KUNG)
O Qi Gong é uma prática de exercícios físicos e
respiratórios realizados com o intuito de concentrar, armazenar, fazer circular
e desbloquear o Qi (Bioenergia) no
organismo humano.
O praticante de Qi Gong tem três aspectos importantíssimos
que necessita aprender a desenvolver, durante a sua prática. São eles, regular
o corpo (obter boas posturas, estabilidade, posições
descontraídas mas firmes); regular a respiração (obter uma respiração
harmoniosa, calma, lenta, profunda, de modo a aumentar a oxigenação) e regular
a mente ( ocalizar,e concentrar o
pensamento, tentando manter a mente serena, livre de pensamentos que não
aqueles que fazem parte dos objectivos a atingir com a prática do Qi Gong).
Os efeitos terapêuticos do Qi Gong são conhecidos dos
Orientais há centenas de anos. O Qi Gong medicinal ou terapêutico tem como
efeito principal, o incremento do sistema de defesas do organismo. A sua
prática regular revitaliza o organismo; torna o corpo resistente e flexível e os
ossos mais densos; fortalece a coluna vertebral ;disciplina a respiração e
acalma, tranquiliza e estimula a concentração mental.
O Qi Gong
baseia-se no princípio de que nós, enquanto seres energéticos, necessitamos
constantemente de recolher e transformar a energia ( Qi). Quando essa energia escasseia (por
causa da doença, ou por envelhecimento, ou por desgaste físico), a prática do
Qi Gong ajuda-nos então a restaurar e a reequilibrar os níveis energéticos, ou
até mesmo a criar reservas para prevenção de doenças e revitalizar o corpo.
Os
exercícios são de simples execução, e podem ser aprendidos por todas as
pessoas. Os seus benefícios são evidentes para aqueles que os incluem na sua
rotina diária.
PONTOS-CHAVE PARA O TREINO DE KUNG-FU DO GROU BRANCO (Bai He Quan)
O grou é um animal fraco, sem muita força para usar em combate. No entanto, quando necessário, pode defender-se de forma muito eficaz. Um grou para se defender baseia-se em apenas três coisas: a capacidade de saltar, o poder de quebrar das suas asas, e as bicadas do bico. O salto é usado para se desviar de um ataque e também para se aproximar do adversário para o seu próprio ataque. Quando um grou usa as suas asas para golpear pode gerar energia suficiente para quebrar um galho grande. A chave para esse tipo de poder é a velocidade. Lembrar que, embora a água seja macia, quando esguichada com rapidez suficiente, pode ser usada no lugar de uma faca em operações cirúrgicas. Finalmente, a velocidade e a precisão com que um grou pode bicar com seu bico é muito eficaz para atacar áreas vitais. Esta habilidade de sobrevivência é útil de outra forma, porque o grou usa o seu bico para apanhar peixe. Em seguida, eu gostaria de resumir alguns dos pontos-chave, juntamente com alguns dos meus últimos 35 anos de experiência de Grou Branco.
1. Grou Branco do Sul é um estilo leve-duro. Para um iniciante, o treino tende mais para o lado duro. Sabe-se geralmente que o treino dos estilos externos faz-se do exterior para o interior e do duro para o suave. A razão é que é mais fácil ser duro, em vez de suave. Não só isso, a fim de usar o suave para se defender, deve entender a teoria de Escutar o Jin (ou seja, sensação de pele e de detecção),de Compreender o Jin, Seguir o Jin, Furar o Jin, Aderir ao Jin, e Enrolar o Jin. Então, deve saber como aplicar as teorias de cada em prática. No entanto, o aspecto mais crítico da utilização suave contra o duro é que você deve saber como cultivar o Qi interno para um nível abundante e ser capaz de levar o Qi para energizar a potência muscular com sua mente concentrada. Para alcançar este objetivo, leva-se, geralmente, mais de dez anos de reflexão e prática. Naturalmente, não é fácil para um iniciante aprender estes níveis altamente secretos da arte.
Normalmente, num estilo externo, um mestre vai ensinar o aluno a usar a mente concentrada para gerar Qi local, como nos braços, e usar este Qi local para energizar a força muscular a um nível elevado. Este tipo de Qigong é classificado como externo Elixir (Wai Dan). A partir deste treinamento, as técnicas marciais podem ser ensinadas e aplicadas imediatamente tanto para defesa e ataque. Este procedimento foi necessário em tempos antigos, quando as técnicas de auto-defesa eram fundamentais para a sobrevivência na sociedade marcial. Só depois de um iniciante de artes marciais externas chegar a um alto nível de habilidade é que o mestre lentamente o introduzia no caminho da meditação. Através da meditação, o Qi é construído para um nível mais abundante no Baixo Dan Tian. Este tipo de treino é classificado como Elixir Interno (Nei Dan). Normalmente, o primeiro passo de formação do Elixir Interno é a Pequena Circulação (Xiao Zhou Tian). Através da prática da Pequena Circulação, não só pode o Qi pode ser armazenado no Baixo Dan Tian a um nível superior, mas também pode ser transmitido em dois vasos muito importantes, o Vaso da Conceção e o Vaso Governador.
Finalmente, a Grande Circulação (Da Zhou Tian) é ensinada ao aluno. Através da prática da Grande Circulação, o aluno irá aprender a dirigir o Qi corretamente para os membros, ou qualquer parte do corpo, e energizá-lo para o mais alto nível de manifestação Jin. A fim de conduzir mentalmente o Qi a circular suave e livremente no corpo, o corpo físico deve estar relaxado. Um corpo tenso fará a circulação de Qi estagnar. Devido a isso, o corpo deve ficar suave.
Portanto, quando um praticante de alto nível de Grou Branco manifesta Jin na sua prática ou em batalha, o corpo físico é muito suave no início, enquanto o Qi é levado aos membros para energizar os músculos para a ação. Uma vez que atinja o adversário, o corpo físico fica tenso de repente. Mais uma vez, é por isso que é chamado ao Grou Branco um estilo suave-duro.
A partir daí, pode-se ver que o interno ou o lado suave do treino do Grou Branco, tanto na teoria e na prática, é a mesma que a de outros estilos marciais internos chineses. A razão para isso é que não importa como um estilo foi desenvolvido, ele deve seguir o "Dao" (Via Natural). Vou explicar o Dao da teoria do Qigong mais tarde.
No passado, era comumente sabido que, se um artista marcial praticava os estilos externos e outro praticava os estilos internos durante três anos e, em seguida, lutavam, o estilista externo ganhava sempre. A razão para isto é que os estilos externos ensinam um praticante a como usar o Qi local para energizar os músculos e aplicá-lo na luta imediatamente. Este não é o mesmo caso para o estilista interno, que ainda vai ter de aprender a ser suave e procurando maneiras de cultivar o Qi internamente. No entanto, depois de dez anos de treino, o estilista externo vai tender para o suave, enquanto o estilista interno se move em direção às aplicações duras e marciais. Se eles lutarem novamente, provavelmente eles irão equilibrar-se um ao outro facilmente.
As sequências iniciais de treino de Grou Branco, como Zhan Jiao Quan (Punho da Batalha Angular), Zhan San Quan (Punho das Três Batalhas), e Xing Qi Quan (Punho das Sete Estrelas), são as mais duras na sua formação. Enquanto as muito suaves, como Shan He Quan (Punho do Grou que abana) e Hu Die Zhang (Palma da Borboleta), são extremamente suaves como Taijiquan. Muitas outras sequências são uma combinação de suave e duro, e são treinados para batalhas reais, como Ba Mei Shou (Oito Mãos de ameixa), Zong He Quan (Punho do Grou que Salta), e Shi Ba Luo Han Shou (Dezoito mãos de Luo Han).
2. As sequências de Grou são construídas a partir Jins diferentes em vez de a partir de técnicas individuais. Se você aprendeu diferentes estilos de artes marciais chinesas, você terá percebido que a construção da maioria das sequências de Grou Branco, especialmente as iniciantes, é construída a partir de vários padrões Jin. Normalmente, as sequências iniciais são curtas e apenas cerca de cinco a dez padrões de Jin estão incluídos. O processo de aprendizagem é curto e fácil. No entanto, o processo de formação é muito longo e difícil. Isto é muito diferente de muitos outros estilos marciais chineses como Punho Longo (Changquan), louva-a-deus (Tang Lang,), ou Garra de Águia (Ying Zhua,), em que as sequências são construídos a partir das técnicas. Normalmente, estas sequências são difíceis de aprender e fáceis de treinar.
No treino da sequência de Grou Branco, uma raiz firme é o primeiro requisito. Como gerar os diferentes padrões de Jin da cintura com a coordenação da respiração é o aspecto mais crítico da formação. Normalmente, vai demorar muitos anos para um iniciante captar a essência da manifestação Jin. É só depois de um Jin se manifestar poderosamente correto é que as técnicas derivadas de cada padrão de Jin são explicadas pelo mestre. Geralmente, cada padrão Jin inclui quatro categorias possíveis de aplicações de artes marciais: Chutar, Socar, Corpo-a-Corpo e Qin Na. Mais uma vez, existem várias técnicas possíveis, em cada uma destas categorias.
Além disso, a velocidade de formação é fortemente enfatizado porque acredita-se que, sem boa velocidade e força nas manifestações Jin, mesmo que saiba muitas técnicas, elas serão inúteis. Portanto, a velocidade e a potência tornaram-se as partes mais importantes do treino nos níveis iniciais.
3. Os movimentos da coluna e do peito são os mais importantes. Acredita-se que a razão para os voos de longa distância das aves migratórias, como o Grou Branco, é porque quando eles voam, eles movem o seu peito, em coordenação com as suas asas. Devido a isto, eles utilizam o seu corpo para executar a maior parte do seu voo. Isso é diferente de aves locais, como o pardal, que usam suas asas só para elevar o seu corpo e, portanto, não pode voar longas distâncias. Naturalmente, quando as aves que voam longas distâncias estão lutando, geram energia a partir do centro do seu corpo e do seu peito.
No entanto, vamos analisar a geração do Jin, do ponto de vista marcial. Teoricamente, desde que haja uma articulação que permite dobrar e endireitar, então considera-se um arco. Estas curvas são construídas a partir dos músculos e dos tendões nas articulações. Através de contração e extensão, o arco é capaz de gerar energia. No nosso corpo, há dois arcos grandes que são construídos a partir dos dois maiores grupos de músculos e dos tendões. Estes dois arcos são no tronco e no peito. Se você olhar para a estrutura do corpo, você vai perceber que, através da contração dos músculos do tronco e no peito, você é capaz de puxar, empurrar, levantar ou fazer qualquer trabalho pesado. Depois de ter lesado os dois arcos, sua capacidade será reduzida significativamente. Novamente, se olhar para os atletas olímpicos que lançam o dardo ou disco, a fim de gerarem energia de lançamento, o tronco e o peito devem ser habilmente aplicados aos movimentos.
A fim de gerar Jin forte para a luta, os dois arcos são enfatizados em todos os estilos marciais chineses. Isto é igual no Grou Branco do Sul. O Grou Branco do Sul é especializado na utilização do tronco e do peito. Podemos ver isso no treino do Qigong do Grou Branco, em que a coluna vertebral e os movimentos do peito são o foco principal. Através treino do Qigong do Grou Branco, um profissional vai aprender a reconstruir a sua coluna e o peito, da fraqueza para um forte nível. Isto inclui os músculos, tendões e os ligamentos também. Só depois de um praticante dominar os movimentos de Qigong e coordená-los com a respiração, a mente (Yi), e a energia (Qi), pode o Jin manifestar-se com a coordenação de outros arcos menores, como os ombros, cotovelos e punhos para manifestar o Jin ao seu máximo potencial.
Você deve entender que, para ter um Jin forte, você deve ter um corpo físico forte (Yang) e um nível abundante de Qi (Yin). O corpo físico é como uma máquina e o Qi é como eletricidade. Se qualquer um deles faltar, a pôtencia não será forte. Portanto, no Grou Branco você está a treinar para gerar energia a partir de abanar e agitar a cintura, e deste abalo, através da coluna vertebral e do peito, a potencia estremece para fora e torna-se o Jin.
Muitas vezes, um novato em Grou Branco ou um profissional de outro estilo só sabe enrijecer os músculos e tendões da coluna e no peito sem saber como relaxá-los. É comum nesta situação que os ligamentos da coluna vertebral, as articulações ou os músculos estejam danificados. Isto é comumente visto em estilos de Karate em que a tensão do tronco é fortemente enfatizada.
4.O Grou Branco do Sul é especializado em combate a curta e média distância. Como já vimos, o Grou Branco do Sul desenvolveu-se no sul da China. Devido ao fundo explicado anteriormente, as suas técnicas de mão são altamente desenvolvidas. Normalmente, em estilos do norte, é dito: "As mãos são como dois ventiladores de porta, levantar a perna para chutar o adversário." Isso significa que as duas mãos são como dois pedaços de uma porta chinesa, que é utilizado principalmente para fechar para bloqueio. O ataque chave origina-se de chutar. No entanto, em estilos do sul, é dito: "Os pés não superiores joelhos". Isto significa que quando os estilos do sul estão iniciando um chute, o alvo é geralmente não superior joelho do adversário. Isso implica que os estilos do sul enfatizam chutes baixos em vez de técnicas altas de chutes.
Pelas razões acima, normalmente, quando um artista marcial de Grou Branco luta, ele ou ela vão ficar a longa distância do adversário. Quando é o momento certo e que a situação permite, ele ou ela iram-se mover rapidamente para as faixas de média e curta distancia e ter a vantagem de técnicas de mãos hábeis para lutar. Logo após o ataque, ele ou ela irão voltar para a distância longa, imediatamente para evitar ser agarrado. Uma vez que o grou é um animal fraco, se agarrado terá pouca chance de escapar. Para preencher esta lacuna, os estilistas de Grou Branco são especializados em técnicas de corpo-a-corpo e Qin Na (apreensão e controle) para lidar com os problemas de ser agarrado. Na verdade, o Grou Branco é considerado um dos estilos mais conhecidos, que tem experiência em Qin Na.
Quando o treino de Grou Branco chega a um nível elevado, as técnicas de escuta, seguindo, furando, aderindo, enrolando, e controlando são extremamente importantes. Ele não é diferente do Taijiquan, que enfatiza os mesmos critérios e experiência em combate a curta e média.
5. A Defesa é usada como ofensa. Porque o Grou Branco é um animal fraco, sem a vantagem da força, tem que usar sua defesa como ofensa. É preciso ter calma, tranquilidade, e serenidade, mas também estar alerta e pronto para atacar. Quando a oportunidade surge e é a hora certa, o ataque é executado num piscar de olhos. A estratégia do grou é, portanto, para se proteger e esperar a oportunidade para atacar.
Para concluir, o treino do Grou Branco concentra-se em manter a distância adequada, com saltos ou movimentos, e na velocidade e precisão em ataques a áreas vitais.
Dr. Yang, Jwing-Ming
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WUSHU ou KUNG FU?
As artes marciais chinesas são hoje provavelmente as mais expressivas, coloridas e completas artes de combate e defesa pessoal. São elas fruto de centenas de anos de evolução, absorvendo com o compasso do tempo as mais distintas valências de uma cultura ancestral e milenar.
Tradicionalmente reguladas com um conjunto de códigos e comportamentos muito específicos, que lhe emprestaram uma dimensão e identidade muito peculiar, foram sendo transmitidas diretamente de mestre para discípulo, de pai para filho ou de monge para noviço, enriquecendo cada geração o legado recebido, e transmitindo à geração seguinte uma arte mais rica e elaborada do ponto de vista do conhecimento humano, em que a medicina tradicional chinesa, as filosofias comportamentais e espirituais, as artes divinatórias e similares, lhe adicionaram essa dimensão tão característica e popular no seu país de origem, alastrando também ao ocidente, onde milhares de praticantes se revêem na sua prática diária.
Conhecidos objetivamente, e cada um deles com uma história e ancestralidade muito específicas que remontam pelo menos a três ou quatro gerações, estes sistemas constituem a quinta-essência das artes marciais chinesas, a partir da qual nasceu a interpretação contemporânea destas disciplinas, a versão comunista de reeducação do povo, no seu original dos idos anos 50.
Esta nova orientação, apesar de não redutora, relegou institucionalmente as artes tradicionais para segundo plano, primeiro por proibição em certa época histórica, posteriormente por ditadura institucional.
Nasce assim um novo paradigma, as artes marciais institucionais e institucionalizadas - o Wushu contemporâneo - baseadas na matriz marcial dos sistemas tradicionais. Ficamos assim com duas novas tendências contemporâneas na abordagem às artes marciais chinesas:
1. Os sistemas tradicionais históricos (mais conhecidos sob a designação de Kung Fu), com uma história registrada de pelos menos 3 ou 4 gerações e uma identidade marcial muito particular, de acordo com a sua localização e em que a marcialidade da sua natureza não esconde os objectivos que lhes deram origem. Hung Gar, Choy Lee Fut, Wing Chun, Tang Lang, Bachi, Chang Chuan, Shaolin, Yang Tai Chi, Chen Tai Chi, etc., são apenas alguns sistemas das centenas já catalogados.
2. Os sistemas modernos (normalmente conhecidos por Wushu), que se por um lado obedecem a um novo padrão estandardizado de vocação educativa e desportiva com a criação de novas rotinas institucionalizadas, por outro especializam o praticante na vertente competitiva (não confundir com a desportiva) em que as rotinas desenvolvidas procuram a excelência e limites das capacidades atléticas, com um sentido prioritário de ordem estética e acrobática, requisitos somente ao alcance de atletas especializados.
Dentro da amplitude abrangente do Wushu moderno, teremos de considerar as seguintes tendências:
a) Wushu estandardizado ou institucional, com objetivos educativos e desportivos, em que a criação de novas rotinas formam um padrão a partir do qual se procura definir e homogeneizar a prática das artes marciais chinesas.
b) Wushu de competição (anteriormente estandardizado nas suas distintas especializações), assentando numa alta componente ginástica onde predominam movimentos técnicos essencialmente acrobáticos, longas corridas, teatralidade acentuada, quedas em splits e o cruzamento destas componentes com outros aspectos mais marciais.
c) Wushu tradicional (de competição ou recreação), onde se presume a execução de rotinas de um sistema marcial tradicional, ou influenciado por este, no entanto de criação livre com a inclusão da matriz do Wushu moderno e de competição.
De notar que estas tendências do Wushu de competição, têm atualmente como premissa fundamental a elaboração livre das suas rotinas baseadas na capacidade criativa de profissionais experientes, obedecendo no entanto a um conjunto de requisitos técnicos pré-definidos.
A grande questão que hoje se coloca em grande parte das instituições internacionais destas modalidades, é que, se bem a popularidade do Wushu moderno seja incontestada no regime comunista e totalitário do país que lhes deu origem, e onde o controlo apertado e a política desportiva apontada se sobreporá sempre à tendência e vontade dos praticantes, nos países ocidentais tal não acontece, tendo vingado claramente os sistemas tradicionais, ocupando o Wushu moderno apenas uma percentagem reduzida no universo dos praticantes, adicionando o facto de os respectivos governos serem alheios às orientações desportivas das instituições que tutelam estas artes.
Portugal não foge a esta regra, sendo que a realidade nacional se compõe na sua grande maioria de praticantes de sistemas tradicionais, claramente prejudicados pela linha desportiva adotada pela tutela respectiva, que tem em conta unicamente os interesses de uma restrita parte do universo dos praticantes, acabando por prejudicar atletas e associações dos sistemas tradicionais, que naturalmente boicotam as competições nacionais e outras atividades relevantes, reduzindo-as a uma dimensão regional, como tem frequentemente acontecido.
Com um sistema competitivo claramente orientado para o Wushu moderno, nas suas variantes Wushu de competição e Wushu de competição tradicional, qualquer atleta de um sistema tradicional histórico encontra-se claramente em desvantagem, dada a distinta natureza da matriz destes sistemas, diametralmente opostas às criações livres e espontâneas do Wushu moderno, cujo único objetivo é a alta performance e rendimento desportivo estético e acrobático, com a execução de exercícios virados cada vez mais para o espetáculo.
Neste momento o Wushu de competição está na corrida para os jogos olímpicos de 2020 juntamente com o Baseball, Karate, Patinagem, Escalada, Squash e Ski, ocupando neste momento a posição mais desfavorável em relação aos seus rivais, de acordo com uma votação on-line do sítio SportsPro, um sintoma daquilo que poderá vir a ser o cenário mais plausível. Nesta luta, e de acordo com o mesmo sítio, o Karate ocupa o segundo lugar, cenário que a acontecer desfere uma forte machadada nas aspirações do governo chinês, que não consegue ver representada no movimento olímpico uma modalidade sua, contrariamente ao que acontece com a Coréia do Sul que tem o Taekwon-Do e o Japão que já com o Judo incluído nestes jogos, está fortemente lançado para incluir também o Karate.
Esta posição reflete na realidade a popularidade do Wushu a nível mundial, um desporto menor e elitista quando comparado com outras modalidades menores, que também pouco conta com o apoio e patrocínio da comunidade internacional de sistemas tradicionais de Kung Fu, substancialmente maior que a do Wushu moderno.
Torceremos no entanto para que este cenário não se concretize, e possamos ver finalmente uma modalidade chinesa representada no panteão das modalidades desportivas.
Neijia - Pelo Mestre Rolando Martins da Neijia Academia de Artes Orientais
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TAIJIQUAN
O Taijiquan (太極拳) (Tai Chi Chuan) é um estilo interno das artes marciais chinesas, criado num mosteiro taoista situado na montanha Wudang (武當寺), na província de Hubei (湖北). A criação do Taijiquan foi baseada nas filosofias do Taiji (太極) e do Yin-Yang (陰陽). Acredita-se que através da compreensão da teoria do Taiji e do Yin-Yang, somos capazes de traçar a origem das nossas vidas. É também através deste entendimento que seremos capazes de treinar correctamente o nosso corpo, manter a saúde e a força do nosso corpo físico e energético, bem como atingir a longevidade. Enquanto monges, a cultivação espiritual dos taoistas tem como objectivo a união com o espírito da natureza, ou seja, o estado de Wuji (無極). Para atingir este objectivo, os monges cultivam a sua natureza humana, nutrindo-a (através da disciplina do seu temperamento).
Wang, Zong-Yue (王宗岳) disse: "O que é o Taiji? É algo gerado a partir do Wuji, sendo uma função crucial do movimento e da quietude. É a mãe do Yin e do Yang. Ao mover-se, divide-se. Quando em repouso, reúne-se." Assim, sabemos que o Taiji não é Wuji, mas também não é Yin e Yang. O Taiji é uma “tendência” da função crucial da natureza que faz com que o Wuji derive do Yin e Yang e, consequentemente, que o Yin e Yang se reúnam no estado de Wuji. Esta função crucial da natureza de quietude e movimento é chamada de 'Dao (道)' ou ‘A Regra' da grande natureza.
‘Taiji’ pode ser traduzido como "O Grande Final" ou "A Grande Extremidade", sendo a tradução de ‘Wuji’ "Sem Final" ou "Sem Extremidade." ‘Wuji’ pode também significar "Sem Oposição". Tal demonstra que o Wuji é uniforme e indiferenciado, um ponto no espaço ou no centro do corpo físico e energético. Por exemplo, nos primórdios do universo, não havia qualquer diferenciação e a este estado foi dado o nome de Wuji. Então, teve início a sua separação em opostos complementares, chamados Yin e Yang. A partir da interacção do Yin e do Yang, todas as coisas foram criadas e cresceram.
É necessário compreender que apesar da teoria do Taiji ter origem no Yi Jing (易經) (O Livro das Mutações), tendo sido estudada e praticada durante mais de 4000 anos na China, a sua aplicação nas artes marciais só começou, provavelmente, alguns milhares de anos mais tarde. Quando a teoria do Taiji foi adoptada pela prática das artes marciais, tornando-se num estilo, foi denominada de Taijiquan “Punho do Taiji”. Portanto, para entender o verdadeiro significado do Taijiquan, a primeira tarefa é compreender o significado do Taiji.
É claro que o Taiji não é Wuji nem Yin-Yang, mas está entre ambos. É a força ou energia crucial que faz com que o estado Wuji se divida nas polaridades Yin e Yang, causando igualmente a reunião do Yin-Yang no estado de Wuji. As duas polaridades Yin e Yang têm origem no estado Wuji através da acção ou função do Taiji. A partir dessas duas polaridades e novamente através da acção do Taiji, derivam as quatro fases. Partindo desta mesma teoria, as variações continuam até que existam mudanças/alterações ilimitadas no universo. Assim, tomamos conhecimento que toda a vida e todas as coisas são produzidas a partir desta interacção recíproca entre o Yin e o Yang, através da função mediadora do Taiji. Logo, quem estiver interessado em aprender Taijiquan, necessita de entender o Yin e o Yang, bem como o relacionamento de ambos com o Taiji. Sem conhecer a teoria e o ‘Dao’, a prática do Taijiquan ficará limitada às formas e movimentos externos. Neste caso, o verdadeiro significado da prática do Taijiquan é perdido.
Antes da acção do movimento Taijiquan, o Xin (心) (mente emocional) é pacífico e o Qi (氣) harmonioso; o Xin e o Yi (意) (mente sábia/racional) estão no Dan Tian (丹田) enquanto que o Qi permanece na sua residência. Este é o estado de calma extrema, o estado de Wuji. No entanto, quando o Xin e o Yi começam a agir, a circulação do Qi é desencadeada, dando início ao movimento do corpo físico e, correspondentemente, à divisão entre o Yin e o Yang. A partir desta exposição, podemos ver que o Yi e o Xin são aquilo que é chamado de Taiji no Taijiquan. Concluímos, então, que o Taijiquan é, na verdade, uma arte marcial da mente.
A mente sábia/racional (Yi) é calma e tranquila. A partir dessa calma, ela pode atingir elevados níveis de concentração e a sua capacidade de armazenamento é bastante profunda. Quando o Yi é profundo, o “sentimento” será preciso e refinado. É imperativo lembrar que o “sentir” é a linguagem da mente e o meio de comunicação do corpo. Um “sentir” profundo e preciso permite-nos manifestar as decisões da mente de forma exacta e rápida.
Apesar dos nossos corpos físicos estarem limitados pela nossa realidade tridimensional, as nossas mentes estão livres para viajar e chegar a qualquer lugar do universo, sem qualquer limitação de tempo. A mente é o Grande Final. Todas as criações humanas, desde pás até aos aviões, tiveram origem nas nossas imaginações. Novas ideias são criadas a partir dos nossos pensamentos. O mesmo acontece com o Taijiquan. Através da prática da arte activa, viva e criativa do Taijiquan, somos capazes de continuar a compreender o significado da vida humana e do universo.
Cortesia YMAA Portugal
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